Mais uma manhã, um novo dia. Não posso dizer que dia é hoje,
já não mais me importa saber os dias já que não sou mais ninguém. Meu corpo
dói, sinto muito fome e estou cansado. Há dias me sinto fraco, tão fraco que já
peço a morte, mas até ela está longe de mim. Não sei que mal fiz aos céus para
sofrer tanto, que pecado cometi contra Deus para que Ele desse as costas para
mim. Já não tenho seus olhos sobre mim. Um suspiro apenas, uma respiração tão
ofegante que me cansa, já que um simples abrir de olhos torna-se uma batalha
diante das feridas que tomam meu corpo.
Cada novo dia traz-me a mesma lembrança, dos meus dias
felizes, dias em que passava com minha família, minha esposa e minha filha,
daria tudo por mais um abraço, por mais um olhar sem desprezo. Decido fazer o
mesmo percurso diário, vou caminhando lentamente já que meus pés já não me
aguentam mais, em alguns trechos do caminho caiu por terra e me arrasto, tenho
que chegar ao fim, tenho que vê-las novamente. Chego no alto de uma colina e de
longe avisto elas, não sabem que eu estou por perto, elas não podem saber, fui
proibido pelas leis, pois a doença é um mal que não pode contaminar outros. Há
anos estou agonizando, lamentando dia após dia, e cada vez que as vejo sinto
mais o desejo de morrer. Não posso tocá-las, não posso abraçar, e por um
momento paro, fecho os olhos e imagino o suave toque de suas mãos, mão que eu
segurei por várias e várias vezes. Mãos que eu ajudei a levantar, acariciar.
Minha família sempre foi tudo para mim. Como eu era feliz.
Hoje sou apenas um leproso vagando pelas ruas e vivendo de
caridade. Cada ajuda que recebo para sobreviver, não sabem eles que o maior
alimento que eu queria era poder um dia poder sentir no tocar da pele o carinho,
o amor de minha família. Volto para o meu lugar, cansado e com lágrimas nos
olhos, sem olhar para ninguém no caminho, mesmo assim não consigo deixar de ver
as pessoas se afastando de mim, até mesmo porque não posso chegar perto delas.
A noite chega, mais uma em que tentarei dormir para não mais acordar. Espero
que seja a última noite para mim... mas não é!

Acordo com um barulho imenso, pessoas correndo e outras
gritando que chegara na cidade um homem que curava tudo, e que estava de
passagem. Por todo o movimento sabia que era alguém muito importante, mesmo sem
poder incomodar as pessoas ia pelos cantos para poder ouvir mais, quando de
repente escuto alguém falar que ele havia curado dez leprosos. Graças a Deus,
os céus me ouviram, podia sentir a esperança que já estava franca no meu
coração. Meu coração disparou e naquele momento pude ver minha esposa e minha
filha, minha família em meus braços novamente. Tinha que ir ao encontro desse
homem. Mesmo sem forças, mesmo cambaleando de tanta dor, sem equilíbrio aquele
seria meu último momento, se não conseguisse ali seria meu último suspirar.
A multidão o cercava e quando me aproximei um caminho foi
aberto, não podia acreditar, aquela chaga que cobria meu corpo, que afastou
tantas pessoas de mim, naquele momento me abriu a oportunidade da esperança de
uma nova vida. Ali estava ele, parado e pela primeira vez depois de tantos anos
alguém me olhou profundamente nos meus olhos e sem nenhuma palavra dita pude
sentir compaixão por mim. Cai de joelhos e com o rosto em terras gritei com
toda força que restou em mim: se tu quiseres pode me curar! Não pude me
controlar e as lágrimas saíram como nunca antes, uma esperança alimentada pelo
desejo de viver, de rever minha família, de poder abraçar, tocar, sentir mais uma
vez minha esposa e filha me fez tremer e não pude dizer mais nada, pois a voz
já não saia mais.

Ele caminhou em minha direção, sem tirar os olhos de mim
estendeu-me a mão. Há anos ninguém estendia a mão para mim, há anos que ninguém
chegava tão perto assim. Senti que naquele momento, mesmo sem a cura aquele
desconhecido homem me deu dignidade estendendo-me sua mão para me tocar. Por um
momento parei, enquanto lágrimas saiam do meu rosto ele me tocou... fechei meus
olhos e pude sentir um amor que a muito tempo não sentia, seu toque meu
preencheu a alma e ele falou: quero, sê limpo! E naquele mesmo instante todas
as feridas sumiram do meu corpo, me levantei e chorando o abracei, não muito
pois corri em direção a minha casa, sorrindo e chorando, cantado uma imensa
alegria no meu coração, e antes que chegasse em casa gritei do alto para minha
esposa e filha, desci bem depressa e com elas chorei a alegria de ter sido
curado por Jesus!

Esta história é narrado por Mateus, Marcos e Lucas no novo
testamento. Não é narrada desta forma, mas podemos imaginar quão preconceito
esse homem viveu, e do que foi impedido de sentir. A dor, as perdas tudo isso é
inevitável, mas a esperança essa deve ser renovada a cada dia. Muitas vezes
achamos que precisamos ajudar alguém com algum bem material, ou coisa parecida,
mas neste caso, o que lhe faltava era dignidade, um estender de mão. Um apoio,
uma palavra, um olhar apenas para poder-lhe fazer sentir humano mais uma vez.
Um abraço, um aperto de mão, um bom dia, boa tarde ou boa noite pode fazer
diferença. Um olhar apenas pode decifrar o código real da necessidade.
FIM
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